Sep
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Breve nota em homenagem a um mestre



Uma vez um mestre desses que encontramos pela vida me deu uma aula em uma breve conversa sobre um pintor. Uma conversa que me ensinou mais do que livros lidos, mais do que minhas presunções dos vinte e poucos me dariam naturalmente. Trabalhávamos no mesmo espaço, ali no prédio gigantesco da Candido Mendes na rua da Assembleia. Passando tardes por ali, mortas as vezes, vivas como essa que conto, ouvi muito desse mestre. Um privilégio que não desperdicei, por certo.

Paulo Sergio Duarte é esse mestre que até hoje presto reverência com a alegria de poder saber que conto com sua amizade. Ele me ensinou tantas ideias e tantas revoltas quanto pude aprender em cada papo furado ou cada aula sua que assisti, palestra que ouvi ou evento que organizei e pude feliz convidá-lo para participar. Paulo não é apenas meu mestre. Paulo é mestre de uma geração, um Antonio Candido carioca do meio das artes, que influenciou direta ou indiretamente muitos dos que hoje estão por aí. O lance é que, não sei o motivo, não louvamos aqueles que nos formam/informam/deformam/transtornam. Achamos que sabemos tudo, então seguimos em frente lotados de sagacidade e maresia. Paulo tem que ser visto sempre como alguém que iluminou mesas, salas e publicações, sempre tentando sair do lugar comum e nos levando a pensar que o mundo das artes não é neutro ou descolado dos outros mundos que vivemos. 





Esse preâmbulo é apenas para dizer que um dia, 2002/2003, Paulo me falou que estava escrevendo um artigo sobre uma gravura (ou pintura) de Iberê Camargo. Uma imagem simples e comum na obra do pintor gaúcho que cavou para si um espaço perene e potente na história das artes visuais brasileiras. Como um Guimarães Rosa, Iberê não é isso ou aquilo, não se aproxima daquele ou do outro, não dialoga com fulano ou beltrano. São criadores absolutos, marcados pela genialidade quase romântica do homem que tem como missão inventar um novo mundo a partir das artes. Paulo sabe disso e como aqueles que conhecem profundamente – profundamente, coisa que quase ninguém hoje em dia faz ou pode fazer – arte e vida, enxergam essa potencia silenciosa em obras como as de Iberê.

Paulo estava escrevendo um texto sobre arte cinética a partir de uma simples imagem de um homem andando de bicicleta. Um simples desenho de uma pessoa equilibrada em uma bicicleta. O comentário de Paulo, de tão simples, mudou minha cabeça. Ele disse que se a pessoa sobre a bicicleta está equilibrada na tela, logo ela está em movimento. Isto é, o personagem e aquela bicicleta estão em pleno movimento, em deslocamento, sentindo a brisa no rosto, eretos. Se, como indicaria uma figura estática em um quadro, a bicicleta estivesse parada, ela tinha que estar no chão, ou ao menos a pessoa deveria estar no chão a segurando pelo guidom. Estando em pé, pessoa e bicicleta estão em movimento.

Mas o movimento, eis o que Paulo me disse e me ensinou de uma vez por todas como pensar a arte, só existe dentro de nossa cabeça. É dentro de nós que a bicicleta se move em ritmo uniforme rumo ao nada vindo de lugar nenhum. O momento congelado da pintura não está de fato congelado no domínio da arte. A arte é cinética pois só alimentada pela ideia abstrata de movimento é que o equilíbrio físico se sustenta enquanto imagem.

Paulo falou muito mais, seu artigo foi publicado, mas esse singelo e despretensioso comentário ficou para sempre na minha cabeça. Ele me ensinou um antídoto para os que perguntam o sentido, a razão ou o porque de uma obra, para os que desdenham dos trabalhos não-figurativos e exigem deles realismo fotográfico, para o artista que esquece o motivo da arte e passa a achar que para as coisas se moverem elas realmente precisam se mover.

A arte para o espectador não é apenas a imagem, mas principalmente a experiência da imagem dentro de cada um, ativando os mais recônditos signos e vivencias. Como andar de bicicleta. Todos sabem como elas ficam de pé quando em movimento - basta pedalarmos de forma contínua. Todos também sabem que nos quadros e gravuras de Iberê temos uma bicicleta em movimento. Mas poucos enxergam, como Paulo Sérgio, que a bicicleta de Iberê é a prova eterna de que a arte é maior do que a vida. Pois quem a pedala, no fundo  e na superfície, é apenas o observador e mais ninguém.









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